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terça-feira, 18 de agosto de 2009

interior desquecido e ostracizado



Regressado duma viagem de 5 dias a Idanha-a-Nova, parece-me oportuno reunir umas breves ideias sobre a actividade empreendedora em Portugal e a forma como está tão mal distribuída.

O estudo que publiquei em 2003 mostrou uma grande diferença entre Lisboa e Porto e o resto do país, entre o litoral e o interior. Não só existem muito mais empresas nas regiões mais desenvolvidas, como se criam nelas muito mais empresas anualmente, mesmo se calcularmos esses indicadores em termos de empresas por milhar de habitantes ou empresas por milhar de empresas já existentes.

A frieza dos números torna-se mais humanizada, mas também mais gritante, quando se passa algum tempo nestas regiões do interior.

Esta minha viagem permitiu-me perceber algumas das razões que tornam mais difícil criar empresas neste interior (citando Herman José) "desquecido e ostracizado".

Deixo só duas ideias a este respeito:

1) Criar empresas para vender a quem?
A densidade populacional é muito menor e o poder de compra claramente inferior, até por causa da elevada percentagem de habitantes na terceira idade, a viver de reformas ridiculamente baixas.

2) Criar empresas para exportar, ou vender para outras regiões do país, ali? Tão longe de tudo?
Quem pretender exportar não tem verdadeiramente motivos para criar a sua empresa tão longe dos portos, dos terminais TIR, das linhas ferroviárias internacionais, dos aeroportos... de tudo.

E, no entanto, "algo se move" nestas regiões.

Pude comprovar a importância de três vectores para "animar" este interior:

a) as autarquias podem ter um papel fundamental na promoção do empreendedorismo público e no desenvolvimento de infraestruturas para a instalação e funcionamento de novas empresas;

b)a migração para os centros urbanos, sobretudo da população mais jovem, aumenta a desertificação dos campos e das aldeias, mas cria oportunidades de investimento nas cidades, como verificaram os maiores grupos de distribuição (lá estão os centros comerciais e os hipermercados, por exemplo);

c) o ensino superior constitui um terceiro vector fundamental para promover algum desenvolvimento e para fixar populações qualificadas.

É claro que nada disto é suficiente mas, se calhar, é o caminho possível para contrariar este atraso crescente do interior.

Com sorte, conseguirei actualizar ainda este ano o estudo acima referido e poderei verificar se a diferença de actividade empreendedora se manteve ou se reduziu. (o papel da sorte aqui resulta de ser necessária a colaboração de entidades públicas para recolher a informação).

Veremos.

1 comentários:

Cristóvão disse...

Bom dia,
Na minha opinião, a desertificação do interior é um problema ao qual ninguém encontrou uma resposta, pura e simplesmente porque os governos sucessivos não se mostraram realmente interessados em resolver esta questão.
Acredito que seja um problema complicado mas estou convicto que não é impossível de resolver. Assim, acho que um bom ponto de partida baseia-se numa simples questão que não diz respeito apenas às cidades do interior: "O que é que motiva um cidadão a morar em determinado sitio em vez de outro?"
Sempre na minha modesta opinião, o que me interessa é saber por exemplo se terei uma oportunidade de emprego (factor económico decisivo que determinou a movimentação das pessoas do interior para as beiras), se a minha família terá acesso a bons serviços educativos (ensino superior inclusive) e de saúde, e por fim, se poderei facilmente deslocar-me para outros sítios (as famosas vias de comunicação).
Logo, isto tudo pede investimentos (públicos ou privados) e, neste momento, não me parece que tenhamos estes fundos e a vontade de os investir nesta problemática. Parece mais importante ligar Portugal à Europa (principalmente à Espanha...sempre o tema do Iberismo) do que ligar Portugal entre si.
Porém, há algum tempo atrás, tive a oportunidade de ver uma reportagem onde falavam de uma medida local que achei interessante. Consistia em povoar zonas do interior por emigrantes em troca de benefícios fiscais. Este incentivo económico chama a atenção das pessoas que depois vão perceber que talvez seja melhor para elas viver numa cidade do interior do que morar numa torre de betão num bairro de Lisboa.
Talvez esta ideia seja o primeiro passo a dar para uma caminhada que vai levar a uma revitalização do território. A verdade é que as empresas só irão investir se houver mercado e, por sua vez, as pessoas só irão mudar-se se existirem oportunidades de trabalho e um bom nível de qualidade de vida. De facto, é um equilíbrio difícil de encontrar mas não me parece impossível.
Post e blog interessantes. I´ll be back...